Atendendo a pedidos de leitores ávidos por obter um maior conhecimento sobre a carreira Mercante, o Jornal Pelicano (JP) dá início a uma série de entrevistas com marítimos, afim de apresentar aspectos pouco conhecidos da rotina de um oficial de Marinha Mercante. E para iniciar esta série, o escolhido foi o Capitão de Longo Curso (CLC) Cristiano Antônio Viganor, 51 anos, formado no Centro de Instrução Braz de Aguiar (CIABA) na turma de 1985, pai de um filho, com 18 anos de experiência como comandante e atualmente trabalhando na empresa UP OFFSHORE.

Quais foram os motivos que levaram o senhor a ingressar na Marinha Mercante?

O amor pela profissão, o fato de que sempre gostei muito de navios e também a necessidade, uma vez que eu não tinha um pai Rico. Assim eu consegui unir o útil ao agradável.

Em sua visão, quais são as maiores diferenças entre a formação do oficial mercante em sua época e na atualidade? Como era situação do mercado de trabalho?

Naquela época havia muitas empresas de navegação de Cabotagem e Longo Curso, com isso os alunos que se formavam tinham muitas oportunidades, devido a grande quantidade de navios existentes.

O mercado era bem promissor, você conseguia praticagem (Estágio Embarcado) logo. Além disso o offshore não era tão valorizado como hoje e existiam navios que rodavam o mundo todo e haviam grandes empresas como Docenave, Paulista, Comodal, Netumar e Frota Oceânica. E também a Cabotagem e Longo Curso eram muito fortes.

Nossa formação era como a atual, porém mais rígida, principalmente na formação militar. O ensino era o mesmo, só que algumas matérias eram mais cobradas, porque o navios não tinham tantos equipamentos facilitadores de navegação. Com isso a gente tinha que se aplicar mais em navegação astronômica e nos cálculos de estabilidade, que deveriam ser todos feitos e colocados em prática.

Fale um pouco de como se deu a sua carreira?

Comecei em navios de Cabotagem no Grupo Libra,  fazendo a linha Vitória (ES) – Santos, puxando minério de ferro e carvão. E depois que venceu o contrato (com a empresa) passei a fazer a linha Argentina-Brasil. Não havia porto certo em nenhum dos dois países, então as vezes a gente ia pra Rosário Central, Santa fé ou Buenos Aires. Depois da Cabotagem eu fui pro Longo Curso, aproximadamente em 1990, fazia as linhas Buenos Aires – Noruega, Alemanha – Inglaterra, Inglaterra – Canadá e Canadá – Brasil. Em seguida fiz a linha do Caribe nos SD 14 (Classe de Navios). Pela Paulista (Empresa de Navegação) naveguei pela África e Mediterrâneo. Posteriormente tive a oportunidade de trabalhar em um Navio Ro Ro, em seguida na Docenave pude fazer a linha do Japão – Estados Unidos – Turquia, famosa triangular, onde nós transportávamos milho pra Turquia.

Trabalhei em um navio norueguês (navio químico), depois em rebocador portuário e finalmente entrei para o ramo offshore, na Up Offshore, onde eu comando há 8 anos embarcações PSV da classe 5000 de 3000 AB.

Quando o senhor começou a carreira como era seu regime de embarque?

Trabalhava-se um ano no Longo Curso pra três meses de férias e na Cabotagem era 1 ano pra 60 dias de férias. Era bem puxado!.

Fazendo um balanço do seu período de praticagem e vendo os atuais praticantes, agora como comandante, o que um Praticante – Oficial deve fazer para ter um bom estágio?

Primeiro ter comprometimento com a profissão. Segundo chegar a bordo e ler os manuais, perguntar muito e tirar todas as dúvidas. Porque ele está ali pra sanar todas as dúvidas, pois depois de formado ele já não as pode ter, deve estar sabendo.

Nessa fase de praticagem ele está lá pra dar continuidade na aprendizagem, se dedicar e aprender. Ele deve falar: Olha eu não sei, quero aprender!. E não ficar com medo de perguntar, pra que ele possa aprender as coisas.

A maioria dos seus companheiros de turma ainda exercem a profissão a bordo de navios mercantes? Quantos chegaram a comandante?

Sim. Uns 30%, talvez nem isso, mas todos estão aí exercendo a profissão.

Como o senhor conseguiu conciliar a carreira e a vida familiar e social? É possível um mercante ter uma carreira bem sucedida e ter mulher e filhos?

É possível (conciliar carreira e família), mesmo assim as esposas que não são do nosso ramo mercante tem dificuldade de aceitar. As vezes dá vontade de você abandonar a carreira por causa de filho, porque você sai de casa e deixa o bebezinho ali, mas ao mesmo tempo quer está lá junto com ele. E pra você continuar, tem que ter muita firmeza, porque eles dependem do seu trabalho pra sobreviver.

Os postulantes a carreira do mar geralmente optam pela profissão, devido a boa remuneração oferecida, e muita das vezes conhecem pouco da carreira. Em sua opinião, quais são os aspectos negativos de ser um oficial de Marinha Mercante?

Ausência da família, perder crescimento de filhos, perder natal e ano novo. Você deixar de passar um aniversário do seu filho ou/e mulher junto deles, perder o primeiro dia do seu filho na escola. Tudo isso são aspectos negativos, coisas que o dinheiro não paga, mas infelizmente é sua profissão, aquilo que você gosta de fazer.

Quais virtudes um bom comandante deve ter?

Ser honesto, sincero e generoso. Além de profissional.

A mulher hoje adquiriu o espaço dela, então isso é muito bom.

Como é vista a mulher a bordo na atualidade? Ainda existe preconceito?

A gente vê ela como uma profissional como um outro qualquer. No início foi muito difícil, porque havia um pessoal muito antigo, que tinha uns preconceitos de que mulher não vai saber fazer isso. Mas pelo contrário o convívio a bordo está sendo muito bom, e elas não perdem em nada para os homens. Hoje você tem mulher na Marinha Mercante chinesa, indiana, peruana , americana,filipina…

A mulher hoje adquiriu o espaço dela, então isso é muito bom.

não está sendo feito um oficial pra marinha mercante brasileira, e sim para a mundial.

Quais suas perspectivas para o futuro da Marinha Mercante?

Que os navios cada vez fiquem mais modernos, principalmente parte de offshore. Cada ano vem modelos de navios mais sofisticados, nada que possa substituir o homem. Em questão do mercado ele teve um boom, caiu um pouco e agora tá voltando de novo a crescer bem.

Ele é mercado promissor, mas está exigindo mão de obra qualificada. Hoje querem que o pessoal fale inglês, porque não está sendo feito um oficial pra marinha mercante brasileira, e sim para a mundial.

Que conselhos o senhor daria aos futuros mercantes?

Se dediquem a profissão, porque é muito boa. Tenham amor pelos navios, profissão e pelos colegas (trabalho). Porque quando você estiver no navio, vai estar na sua segunda casa, com sua segunda família. Tem pessoas que não tem esse amor, e fazem daquele lugar apenas uma forma de se ganhar dinheiro e ir embora. Mas sou contra isso! Eu acho que você tem que ter esse amor pelos seus colegas de trabalho e navio, porque é ali que você tira o seu pão de cada dia o seu conforto e o de sua família.

A sua dedicação (pela profissão) tem que começar desde o dia que você entra na EFOMM, até você falar: Eu não quero mais trabalhar no ramo marítimo!. Porque essa profissão exige pessoas dedicadas, e as pessoas dedicadas conseguem crescer e sobreviver nela. Pessoas que não são dedicas, não conseguem crescer nem sobreviver nela.

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Fabricio
Aluno do 3º ano de Náutica da EFOMM, Vice-Presidente do Jornal Pelicano e Presidente do Grêmio de Relações Internacionais da Marinha Mercante.