Guarda Costeira Americana realiza buscas por cargueiro perdido em região de tormenta tropical. (Imagem: Jornal Pelicano)

Foram encerradas as operações de resgate e salvamento por 33 tripulantes do cargueiro El Faro, desaparecido no dia 1 de outubro após ter realizado contato com a Guarda Costeira dos Estados Unidos (USCG). No dia 5, após terem sido encontrados evidências do naufrágio, a equipe passou a concetrar suas buscas apenas em naúfragos da embarcação. No entanto, depois de uma exaustiva busca de quase uma semana, abrangendo uma área de aproximadamente 183.000 milhas náuticas, infelizmente, não foram achados sobreviventes.

professor de Meteorologia e Oceanografia do CIAGA, CMG Valgas, em entrevita ao Jornal Pelicano, analisou os trágicos eventos que levaram ao naufrágio do navio El Faro.

Paulo Roberto Valgas Lobo é Capitão de Mar e Guerra da reserva, fez Pós-graduação em Meteorologia na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro); Mestrado no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais); Aperfeiçoamento em Hidrografia e Navegação na DHN (Diretoria de Hidrografia e Navegação) e Curso de Especialização em Previsão do Tempo e do Clima na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

JORNAL PELICANO – A tripulação do El Faro zarpou da Flórida numa quinta-feira (dia 1º) já ciente da presença de um furacão categoria 3 perto das Bahamas. Não era possível eles traçarem uma derrota que não cruzasse a trajetória do furacão Joaquin?

PROFESSOR VALGAS – A essa altura, Joaquin já deixara de ser uma tormenta tropical para um furacão força 3 (escala Saffir-Simpson), que é muito grande. Durantes esse tempo todo, os navegantes recebiam preciosas informações do site www.nhc.noaa.gov que mostravam a posição e a linha de trajetória do furacão para os três dias seguintes. É inacreditável que os navegantes, providos desses dados, não tenham alterado sua derrota e desviado do corpo do furacão. Boias oceanográficas constataram ondas de 32 metros de altura nessa região! Me parece que o navio insistiu em continuar viagem até Porto Rico, sem alterar seu rumo.

É inacreditável que os navegantes não tenham alterado sua derrota e desviado do corpo do furacão

JORNAL PELICANO – As manobras evasivas que estudamos em sala de aula são realmente eficazes contra um furacão dessa magnitude e força?

Manobras evasivas em stuação de furacão no hemisfério norte. (Imagem: Google Images)
Manobras evasivas em stuação de furacão no hemisfério norte. (Imagem: Google Images)

PROFESSOR VALGAS – SIM! O importante não é a força do furacão, mas sim sua trajetória. Não devemos cruza-la pois nessa direção vamos encontrar as ondas mais desenvolvidas. Se o navio se dirigia para Porto Rico, nos parece que ele estava no semicírculo navegável do corpo do furacão. Ele teria que se posicionar para receber ventos pela alheta de boreste e assim se afastando do perigo. Não podemos afirmar, mas se o El Faro foi atingido pelo Joaquin, ele provavelmente estava tentando atravessar sua trajetória e acabou entrando no semicírculo perigoso. Não cumprindo as manobras evasivas, que são muito eficientes.

JORNAL PELICANO – Pelos vestígios encontrados no mar pela USCG, tudo indica que o navio foi abandonado. Foi a melhor providência a ser tomada nessa situação?

PROFESSOR VALGAS – Quando um navio começa a sofrer com ondas muito grandes, com cristas na proa e na popa, cavado no meio, ele corre risco de alquebrar (se partir ao meio). Se recebe ondas pelos bordos, pelo través, corre o risco de emborcar (virar de ponta cabeça). Quando se percebe que o navio está prestes a afundar, é normal que seja executado o plano de “postos de abandono”: as embarcações de salvamento são arriadas, os coletes salva-vidas e as roupas de imersão são vestidas. Como vimos em sala de aula, botes podem emborcar, mas não afundam com facilidade.

JORNAL PELICANO – A função da EPIRB (Emergency Position-Indicating Radio Beacon) é emitir o sinal da última localização do navio antes de afundar. No caso do El Faro nada foi recebido. Em sua opinião, por que isso aconteceu?

PROFESSOR VALGAS – Quando o navio afunda, a EPIRB é liberada através de um mecanismo hidrostático e fica emitindo um sinal como uma boia na superfície. Talvez o navio tenha emborcado e o aparelho não conseguiu emergir; talvez tenha ocorrido algum problema que não foi acionada e tenha afundada com a embarcação, ou que seu sinal foi bloqueado devido a profundidade.

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Colares
Adaptador aluno do 3º ano de náutica, coordenador geral do Jornal Pelicano.